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sábado, 26 de maio de 2012

"Que, então, isto é tudo o que significa estar vivo: estar preparado para morrer."

Por Carlos Gabriel F.

Eu gosto de acariciar livros e suas páginas amareladas. Gosto de passar os dedos nos volumes e suas peripécias existenciais em formato de brochura; gosto de desfilar a epiderme pelas diferentes texturas assim como quem adora andar na rua cabisbaixo a trilhar um caminho meio a grades de edificações antigas. Gosto, amo, e, por vezes, vivo para isso. Descubro histórias na imaginação destinatária filosófica de que meus dedos encontrem algo que me seja encaixado no plausível.


Foi assim que me descobri com “A única certeza da vida é que um dia você vai morrer” entre as palmas, devorando algumas páginas e amargurando algumas lágrimas a não serem soltas com o primeiro trecho disponível. No meu chorar involuntário desejei em ardência que aquele livro fosse meu. David Shields (que belo sobrenome em uma tradução literal e solúvel para o português), que dedica ao seu pai de noventa e sete anos sua singela história, narrada em uma raiva tão grandiosa do simples existir, é um ensaio sobre nossa condição biológica. David aprofunda no seu âmago, no seu subjetivo, a fim de demonstrar a exploração de nossa existência. 

Ao nos levar em uma linha cronológica de três gerações, aprofundamo-nos na nossa própria história, que, se vista de perto, bem de pertinho, é tão brilhante e original — e é nesta brevidade ilustre que o autor quer se afogar para conseguir relatar sua experiência; uma autobiografia de seu próprio corpo de cinquenta e um anos, tangente da transitoriedade frágil de uma realidade mesquinha ideologicamente dividida. David faz em sua brochura uma investigação daquilo que parece ser tão simples: a vida. Contemplamos a rapidez  da vivência de sua história enquanto nós, igualmente inaceitáveis mortais, rimos, choramos, mu-da-mos de acordo com os acontecimentos historicamente demonstrados. Encaixamo-nos no lócus da leitura e observamo-nos a vagar na insanidade do viver com a única certeza de que um dia morreremos.

“Esta é a minha pesquisa; isto é o que sei agora: os fatos cruéis da existência, a fragilidade e a transitoriedade da vida em sua nua realidade corpórea; os seres humanos como animais desolados e divididos; a beleza e o sentimento que existem no meu corpo, no corpo dele e no de todo mundo igualmente.
Parece que estou sempre dizendo: aceite a morte. 
E a resposta dele, inteiramente compreensível, é: aceite a vida.”

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Onde vive a esperança literária.

Por Carlos Gabriel F.

Quem aqui me vê divagando sobre literatura infantil imagina que tenho alguns problemas de desenvolvimento mental ou que me ludibriaram com algo limitado e forjaram-me ao falso conhecimento. Comecei com “Ode às cores esquecidas”, jogando ao cosmo cibernético a minha visão orgânica sob as cores e seus respectivos comportamentos. “Flicts” em suas páginas miúdas me marcara em tamanha voracidade que adquiri mais conhecimento em seus rabiscos coloridos minimalisticamente do que com brochuras de letras milimétricas e de páginas centenárias. Depois me veio a mente a importância do “Pequeno Príncipe” e seu imenso valor semântico para com minha subjetividade.



E só quero voltar neste âmbito novamente por mais um momento oportuno e, apresentar-vos, caso já não seja tão tarde, Maurice Sendak: aquele mesmo que escreveu o livro que foi adaptado aos cinemas e virou aquele filme-que-me-faz-chorar-por-horas, “Onde Vivem Os Monstros” (1963). Ontem completou-se uma semana que Maurice morreu, aos oitenta e três de puro prazer bélico literário. Seus livros trazem a tona valores infantis, que todos sobreviveram e tiveram uma história para contar; com ilustrações de riscos leves, o autor traçava a sua magnitude literária  e exibia ao lume o verdadeiro valor sentimental dos fatos.

O livro de 1963 foi, a priori, banido das livrarias e os professores o odiavam. Demorou-se tento para tornar perceptível à criticidade humanóide de que o livro de Maurice, na verdade, retrata os valores psicológicos personificados de cada sentimento humano: a raiva, o amor, a doçura, a razão, entremeados na alma e psicológico, labirinto complexo de pensamentos e ideologias em formação, de um indivíduo em formação. “Onde Vivem Os Monstros” é, em especial, tanto para mim quanto para um público interessado, uma expressão loquaz de expor metaforicamente o que se passa em um mundo paralelo ao real: daquilo que traz à tona vontades incabíveis e subjetivas.

Happiness isn't always the best way to be happy.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Nota mental: não ultrapassar os 10,5.


Por Carlos Gabriel F.

Olhei para a pilha de livros que casualmente deixo acumular com o tempo – culpem a universidade, professores e sujeitos adjacentes que me desmerecem de momentos agradáveis de leitura em que não fico pensando nas outras tarefas acadêmicas que deveria estar exercendo –, resolvi folhear um novo, emprestado recentemente por um caro em especial. Mentalizei minha necessidade, analisei o contexto meteorológico – atire a primeira pedra quem não avalia livros pelo clima! – e pensei naquilo que seria inovador. “Qual seu número?” se distinguiu entre todos os demais com sua áurea romancista e foi, então, o escolhido. 

Uma brochura do gênero nunca havia me passado pelas mãos; histórias de amor o máximo que havia lido era o relacionamento vampiresco e obscuro de Lestat de Lioncourt e Louis de Pointe du Lac. O resultado após as dez primeiras páginas foi de amor instantâneo: gostei de como Karyn Bosnak traça a trajetória de sua personagem sem presunção, revelando histórias inovadoras e que nos fazem esboçar sorrisos nos lábios. Para o recesso prolongado que acontece aqui no Brasil, imergido em um frio bom e de céu nublado, era tudo que eu precisava. 

Comecemos com o hilário-histórico-narrativo: Delilah Darling beira os seus trinta anos e já fez sexo com dezenove caras (sim!) – quando a média para mulheres normais beira os 10,5, como bem aponta um  estudo de um tablóide americano; e complementam: quem está acima deste número não seria possível encontrar uma pessoa certa. Desesperada (e vagabunda), Delilah vê-se na necessidade de se auto-impor um limite: vinte, vinte caras seria o máximo ou entraria para o celibato. “Eu olho para ela. Pobre anjo, discriminada por todas as cadelas mais novas, mantida presa no porão porque ela é mais velha do que todos os outros filhotes da loja. Telepaticamente, eu digo a ela que a entendo. Eu me senti do mesmo jeito depois que Rod e eu paramos de nos ver. Eu também era mais velha do que todas as cadelas disponíveis, e a competição havia ficado dura demais. (...) ‘Várias pessoas brincam com ela, mas ninguém assume o compromisso?’ Novamente, eu digo a ela por telepatia que entendo como ela se sente. Quando pisca os olhinhos pra mim de novo, sinto como se estivesse me olhando no espelho. Se houvesse um universo paralelo habitado por cachorros, então essa pequena yorkshire seria uma versão de mim”.

Delilah, com um emprego digno, é então despedida. E, para garantir sua infelicidade mergulhada nas margueritas, vê-se no dia seguinte deitada na cama do homem mais imprevisível e nojento da cidade. Desesperada, a mulher se encontra diante o improvável: havia alcançado o limite. Em uma solução encontrada desesperadamente, Delilah conclui que deve “voltar” no tempo e visitar cada homem que foi para cama. É aqui que começa a viagem de redenção: a personagem passa por cada canto do país em busca daquele uma vez fez parte de sua história, em uma tentativa de reatar um relacionamento que, porventura, não se ramificou para o presente. Com várias metáforas e referências culturais, Karyn consegue prender o leitor com seu modo crítico e cômico de narrativa. Delilah nos conta do seu passado e nos diverte com suas histórias improváveis, fazendo-nos refletir sobre nossos laços afetivos e como agimos nas mais diferentes circunstâncias.

“É engraçado perceber a velocidade com que as coisas podem mudar. Sentimentos, não importa o quanto sejam intensos, podem ser efêmeros. Em um estalar de dos, a felicidade pode se transformar em tristeza; a esperança pode se transformar em desespero; e, um belo dia, o passado chega para causar assombro, e faz com que se perceba que é preciso pisar no freio.”

P.s.: o livro já foi adaptado aos cinemas, mas ainda não tive a oportunidade de conferir.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Apresentação da necessidade translúcida de Jimmy Corrigan.

Por Carlos Gabriel F.

Destes dias atrás, enquanto andava pelo shopping com certa descontração de procura insaciável para se fazer algo em tempo ocioso absoluto, parei em uma livraria – como de usual: porque me parece que meus passos, espaçados de grande desavença, me levam diretamente para aquelas grandes lojas com brochuras operando enquanto paredes imaginárias de literatura – e, depois de tanto observar os mesmos livros da semana passada apenas dispostos em lugares descontraídos de desigualdade, parei-me no nicho dos quadrinhos. E confesso-vos: entrei em um colapso nervoso de tamanho amor e necessidade física de levar todos para casa. Não fui criança de revisar os jornais em busca de quadros históricos sobre narrações concisas, cômicas e sagazes de assuntos políticos; estes desenhos perpassaram minha vida em momentos importunos de desapego. A verdade é que nunca havia me interessado, de fato, pelos discursos imagéticos e pelas falas em balões redondos de bravura.

Mudei-me por inteiro, em ideologia e subjetividade, ao pegar em mãos “Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo” (2000) de Chris Ware. Soube que os quadrinhos do autor são um dos mais prestigiados na invenção das HQs – pergunto-me em lucidez: como eu não soube disso antes?. O que narro aqui são expectativas diante um fato consumado: os seus desenhos me remetem a um passado nostálgico de minimalismo incrível, inspirados nas ilustrações americanas do final do século XX, em que a combinação cronológica pode ser feita de formas invariáveis – seja pela disposição dos quadros ou pela forma que a história é contada aos leitores. O protagonista deste conto é Jimmy Corrigan: tímido e solitário homem de meia-idade, que recebe do pai, até então desconhecido, uma carta para um encontro de finalmentes. Sua reunião com a família resulta em uma sequência de momentos constrangedores e claustrofóbicos que não permitem a aproximação sentimental entre quaisquer personagens que sejam. 



Chris Ware expõe nas páginas da obra a sua própria história. Também filho de um pai desconhecido, o autor foi contatado pelo pai enquanto escrevia e desenhava o texto. É o retrato de uma vida com tentativas de enlaçamento e vínculos – que perduraram no infinito dos cosmos e não deram certo. “Jimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do Mundo” é a fuga de um mundo acre e amargo, marcado por uma timidez, narrado por uma poesia bela em busca de redenção e perdão. 

Por favor: ler uma parte, apaixonar-se e me presentear o quanto antes.

domingo, 22 de abril de 2012

“Ter com o amor (um pouco)/ Mais de cautela/ Do que com tudo”

Por Carlos Gabriel F.

Pega esse teu chocolate quente, aproveita o clima frio lá fora e busca lá na estante, velhinha de tantas brochuras memoráveis, um dos seus livros favoritos, daqueles que narram uma realidade alternativa e que te fazem querer colocar em prática a história da autora. Que façamos viagens experimentais até países de diferentes expectativas; que nos façam experimentar culturas tão interessantes; que nos cative pelo diálogo exuberante através das mais diferentes pessoas, olhares e emoções; que nos leve na mais verdadeira sensação duradoura de que a mudança é possível, seja por meio da degustação de uma boa bolonhesa, da nervosa reza em suplica necessária por salvação diária ou pelo batimento acelerado do coração diante uma paixão inesperada. Relembre o gostinho inovador de “Comer, Rezar e Amar” porque eu quero falar da sua continuação “Comprometida: uma história de amor”. 



A adaptação do primeiro livro de Elizabeth Gilbert para as telas do cinema em 2010 foi um sucesso. A sua continuação nas brochuras, publicado no mesmo ano, não é tão conhecida, entretanto. Ao perguntar para colegas se já haviam lido “o depois” no segundo livro, negam-me com a cabeça em veemência e alegam, por vezes, que nem haviam realizado o conhecimento desta tal prolongação. Pois bem, que seja apresentado: “Comprometida” é o devaneio em voz alta de Elizabeth, entremeada de borrões de xícaras de chá e muitos drinks, tratando de diversos assuntos entrelaçados ao matrimônio. 

O livro é amavelmente dividido entre oito capítulos anacrônicos, que retratam os diferentes aspectos do casamento: suas surpresas, expectativas, histórias, paixões, subversões. Gilbert, ainda em paixão com suas viagens, descobertas culturais e o brasileiro Felipe, busca representar nas suas páginas a aceitação perante algo tão grandioso como este contrato de união. Liz atravessa as mais diferentes culturas, indo da Grécia Antiga até a Ásia, para absorver a si a verdadeira essência do relacionamento. Sua narração é antes de tudo uma súplica desesperada pela aceitação do enlaçamento entre duas pessoas. “Mas não há dúvida de que algo também se perdeu nos nossos lares modernos, fechados e privadíssimos. Observar a interação das mulheres hmong me fez pensar que a evolução da família ocidental, cada vez menor e mais nuclear, pode ter exercido uma pressão específica sobre os casamentos modernos.”

“Comprometida” é um ensaio sentimental de Liz sobre perguntas triviais acerca do casamento; questionamentos estes que circundam a maioria das pessoas e causam alguns tormentos no simples ato de responder “sim” – mas  palavra esta que é preenchida de tantos significados e responsabilidades. “Comprometida” é, sobretudo, a transfiguração de um rito de passagem recorrente a todos relacionamentos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

À espera da felicidade.


Por Arthur Franco

“A Sra Dalloway disse que ela própria iria comprar as flores”. É com essa, singela e aparentemente indefesa frase, que Virginia Woolf começa um dos seus mais famosos trabalhos: Mrs. Dalloway.


Mas quem é Mrs. Dalloway? Clarissa Dalloway é uma mulher já de meia idade, vivida, decidida e feliz que se prepara para dar uma festa em sua casa. Ela tenta se concentrar nas atividades que fazem parte dessa ocasião: comprar flores, preparar o que será servido, arrumar a casa. Mas são nessas atividades cotidianas que a mente da personagem perde-se e ela envolve-se em lembranças e pensamentos sobre o passado, sobre as escolhas que vem e como a vida poderia ter sido diferente.

O leitor é levado para dentro da mente de Clarissa, revolvendo o seu passado e tomando forma das suas emoções. Conhecemos a sua juventude, a candura, a simplicidade e inocência de um beijo; entendemos os seus amores passados, e como as emoções de outrora teimam em vir à tona quando ela reencontra convivas de antigamente; participamos dos dramas que podem parecer demais dentro da cabeça de Clarissa, mas que no fundo reconhecemos em todos nós.

Ela representa os momentos decisivos da vida, aqueles que pensamos como levamos a nossa existência, no que fizemos no passado. Ela representa a felicidade, o momento presente e o desejo constante de mudança do ser humano. Mas, sobretudo, apesar de todas as desilusões, as inseguranças, ela consegue encontrar a felicidade, mesmo que seja por alguns breves instantes. E é como acontece fora dos livros. A felicidade vem acanhada, nos momentos inesperados e nos acontecimentos triviais. É como escreve Virginia em um trecho: “Tinha parecido o começo da felicidade, e Clarissa ainda se choca, trinta anos depois, quando percebe que era a felicidade: que a experiência toda repousa num beijo e num passeio, na expectativa de um jantar e de um livro”.

Mrs. Dalloway é um romance escrito por uma mulher que vivia com uma intensidade exacerbada e uma profunda melancolia. É um daqueles livros com personagens reais, com pessoas iguais a mim ou a você, que tem alegrias, felicidades e conquistas, mas também decepções, mágoas e angústias.  Mas que no fim, descobrem que são esses sentimentos, essas trivialidades, que os fazem humanos. 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Prepare-se para ficar sem fôlego.


Por Arthur Franco

Essa não é a primeira aparição de Tess Gerritsen aqui no blog. A Pecadora, terceiro romance da autora que tem a participação da Detetive Jane Rizzoli e a médica legista Maura Isles, já ganhou um review aqui

Volto agora com o quarto livro de Gerritsen com a presença de Rizzoli e Isles, publicado em 2004. Duplo Crime, assim como o seu antecessor, é um policial de cortar a respiração. O estilo da escrita da autora continua o mesmo: ágil, frenético e cativante. Os detalhes médicos são inúmeros e a profundidade das cenas e das histórias faz com que fiquemos sempre curiosos sobre o que vem na próxima página.

Dessa vez, um corpo achado na frente da casa da Drª. Isles dá início a uma investigação que ela nunca poderia imaginar. A morta é idêntica a ela: as duas compartilham o mesmo rosto, o mesmo cabelo negro, a mesma cor dos olhos. Maura, filha única, fica ainda mais espantada quando um exame de DNA confirma que as duas são irmãs. A investigação vai levá-la a tentar encontrar a mãe que a abandonou e a família biológica que nunca conheceu. Mas também vai revelar segredos assustadores e um passado que era melhor não conhecer.

Duplo Crime segue a mesma linha de A Pecadora. Segredos dentro de segredos durante todo o livro, reviravoltas e situações que dão vontade de nunca largar o livro. Atenção especial para os capítulos finais, como uma sequência que faz o leitor ficar sem fôlego. 

domingo, 8 de abril de 2012

Um fantasma sublime.

Por Arthur Franco

Não é um livro em si, mas A Queda Da Casa De Usher, de Edgar Allan Poe, é um conto que tem conteúdo para ser uma obra literária completa. São tantas as metáforas e interpretações que podem se tirar da história que muitas vezes penso que o enredo, desenvolvido não mais do que em 20 e poucas páginas, é tão profundo quanto algumas obras que tem centenas de páginas. 

A trama em si é simples: um antigo amigo de Roderick Usher chega para visitá-lo e o descobre em um estado deplorável. A loucura, herdada da família, começa a tomar Roderick e conduz a sua irmã à morte. A trama tem um desenrolar inesperado, mas tudo culmina para o final, o que o título do livro já entrega: a queda da casa de Usher.


Edgar sabe escrever um conto de suspense e atormentado de sombras como quase nenhum outro escritor. Não existem sustos nem grandes tormentos, mas toda a sua perfeição se encontra nos detalhes, pretensiosamente descritos e cheios de significados. Nesse conto específico, encontramos a casa de Usher, que, entre as suas duas janelas frontais, detém uma rachadura, já símbolo da mente dividida de Roderick. E é essa dualidade que fará que o conto termine com o seu derradeiro final. O ambiente é sempre frio, opressivo, assim como a mente e a realidade dos personagens. A tristeza, oriunda de lugar algum, é onipresente, sem razão: “uma sensação de alguma coisa gelada, um abatimento, um aperto no coração, uma aridez irremediável de pensamento que nenhum estímulo da imaginação poderia elevar ao sublime.”
 
Roderick também não é aquele personagem ardente, que luta para a loucura não tomá-lo de vez. “Tez cadavérica, olhos grandes, transparentes, luminosos sem comparação; lábios um tanto finos e muito pálidos (...) cabelos que lembravam a maciez e a suavidade de uma teia de aranha.” Fora da realidade, longe da sanidade e sem perspectiva de melhora, vive do passado e da relação (misteriosa, doentia e incomum com a irmã, gêmea, diga-se de passagem). Tudo, desde o ambiente, passando pelo mobiliário da casa, até o passado e as atividades de Roderick culminam para que a melancolia seja o ponto principal da vida dos Usher. E tudo leva ao seu fim, ao seu desabamento, tudo colocado magistralmente no universo do fantástico pelo Sr. Edgar Allan Poe.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Páginas com páginas.

Por Carlos Gabriel F.

Conhecer a história de seu ídolo talvez seja uma das melhores narrações literárias que um bom leitor pode percorrer. Tragar o conhecimento daquele que, porventura, tenha realizado uma grande diferença em sua história enquanto crítico-conhecedor-de-palavras, seja por meio de suas músicas ou textos ficcionais, pode se tornar um grande prazer enquanto orgasmo cerebral. O fato é que biografias datam as histórias daqueles que mais glorificamos: os autores artísticos. 

Aqui datilografo a história dos que justificaram sua vinda ao plano terrestre. Suas cronologias, instigantes, são narrativas que aprisionam, retomam ao passado de uma forma anacrônica para nos submeter àquilo que mais desejamos conhecer: a sua mudança ao longo do tempo, os seus pensamentos induzidos e atos de bastidores. Com as biografias desejamos ter ciência daquilo que vemos registrado nas páginas do seu (in)consciente e representadas intertextualmente em suas obras.

Saramago: Biografia”, por sua vez, traz a história de um dos grandes leitores da era contemporânea (não me façam usar os verbos no passado, por favor). João Marques Lopes traça uma linda trama dos antecedentes de Saramago, desde o seu nascimento na Aldeia da Azinhaga, onde nos descobrimos diante as grandes referências presentes em seus livros. Lemos sobre seu avanço e sua já tardia iniciação na literatura, apenas aos 53 anos, mas de grande impacto social. Vemo-nos em 1998, quando Saramago ganha o Prêmio Nobel da Literatura e onde se torna o único escritor português a ser representado por sua nacionalidade. A brochura se torna referência para aqueles que desejam ter em mãos não apenas uma história marcante, mas também um toque de inspiração para sempre começar, que não é tarde.

Tarsila por Tarsila”: o resultado artístico de grandes entrevistas com familiares; baús, gavetas e caixas remexidos e trazidos ao presente para transmitir aquilo que a grande pintora brasileira Tarsila do Amaral traçou em sua vida e representou em terras tupiniquins e exteriores. Tarsila do Amaral, agora enquanto sobrinha-neta da grande artista, traz a tona o dia-a-dia da modernista que revolucionou por décadas. A sua representação é tão intensa que compreendemos a sua grande significância para o público brasileiro. A partir do relato do seu passado, desenvolvemos a perspectiva do que vivemos em tempo presente. 





Mais Pesado que o Céu - Uma Biografia de Kurt Cobain” vem a tratar com exatidão disso. Charles R. Cross representa em suas páginas os fatos da vida do mítico e revolucionário líder da banda Nirvana. Temos conhecimento de sua história conturbada, enquanto criança, ao viver em trailer numa cidade do estado de Washington, os detalhes de seus vícios e a finalização primaveril com seu suicídio em 1994. Somos contemplados com anotações, depoimentos e fotos, que corroboram para a nossa ideologia perante um grande artista. 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde.

por Arthur Franco

“ – Adeus – disse a raposa. – Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” Talvez seja uma das frases mais clichês que se tem notícia, principalmente em tempos do falecido Orkut. Mas O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, continua a ter um lugar especial no coração de quem leu essa obra admirável.  

Existem sempre aqueles que julgam o livro como uma obra infantil, seja pela presença constante das aquarelas do autor, seja pela linguagem simples e pelo rumo que a história toma até o seu final. Mas, como diz o próprio Exupéry no prefácio, “todas as pessoas grandes foram um dia crianças. (Mas poucas se lembram disso)”. Aqueles que já conheceram a história do principezinho que decide sair do seu pequeno planeta para ver o mundo, sabem que o enredo por trás daquelas ingênuas palavras e das alegorias contadas através de raposas, geógrafos e rosas é bem maior e bem mais tocante. 


Aproveitando-se de uma revoada de pássaros que emigravam, o pequeno príncipe decidiu que era hora de conhecer outros planetas. Foi assim que passou pelo planeta do vaidoso, do bêbado, do homem de negócios, do acendedor de lampiões e do geógrafo, até desembarcar no maior deles: a Terra. Não era um planeta qualquer, “contam-se lá cento e onze reis (não esquecendo, e claro, os reis negros), sete mil geógrafos, novecentos mil negociantes, sete milhões e meio de beberrões, trezentos e onze milhões de vaidosos - isto é, cerca de dois bilhões de pessoas grandes.” É ali que o garoto com cabelos de ouro e que não responde quando o interrogam encontra a sua passagem de volta para casa e apresenta o personagem mais querido e cativante do livro. A raposa, dona do célebre diálogo sobre cativar e sobre o essencial ser invisível aos olhos, nos é apresentada de forma breve e aparece em um só capítulo, mas mesmo assim se tornou a personagem mais célebre de toda a obra. É com ela que o príncipe mais vai aprender e que nós, do lado de fora da narração, mais vamos tomar consciência de quem é importante nas nossas vidas. 

O vocabulário fácil, mas permeado de metáforas e constatações filosóficas, transforma O Pequeno Príncipe na obra extraordinária que ele merece ser. Os diálogos são construídos de forma sistemática e indutiva, que permite que o leitor tenha vários olhares sobre a mesma sentença e diversas conclusões acerca de uma mesma conversa ou de um determinado personagem. É fácil encontrarmos geógrafos, serpentes e vaidosos no nosso dia a dia, a Terra está mesmo cheia deles. O que precisamos é identificar quem são as raposas e as rosas do nosso universo simbólico e de que forma estamos a cativar os sentimentos alheios. 

É nesse sentido que o príncipe de Exupéry tenta, assim como o acendedor de lampiões, originar uma luz que permite enxergar melhor o mundo, ver o invisível com os olhos do coração. E é assim que ele consegue.  

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Ao canto dos tordos.

Por Carlos Gabriel F.

Estreou na penúltima sexta-feira do já despedido mês de março, 23, a tão esperada película, dirigida por Gary Ross – também responsável por “Seabiscuit - Alma de Herói” e “A Vida em Preto E Branco” –, intitulada como “Jogos Vorazes”.


Precisa-se notar que minha perspectiva diante a trama criada previamente por Suzanne Collins em meados de 2008, para qual o filme tomou como base, ainda é recente. Recentíssima, aliás. Havia lido, nesse oceano cibernético, sobre como a brochura era interessante e que deveriam constar nas listas de “livros aleatórios de ficção-científico-fantasiosa que merecem ser lidos”. Apesar da edição brasileira ter chegado nas prateleiras ainda em 2010, por meio da editora Rocco, encontrei-me com as páginas apenas semana passada.

Suzanne, como bem vale ser lembrada, teve uma carreira voltada para o infanto-juvenil. A norte-americana, de madeixas castanhas e olhos acinzentados de tamanha doçura, já trabalhou com o canal televisivo Nickelodeon, onde ajudou na produção de programas tais como “Clarissa Explains It All” e “The Mystery Files of Shelby Woo”. A comunicadora formada em Indiana University passou, então, para o âmbito literário, em que se dedicou, primeiramente, a livros inteiramente infantis, muitos inspirados no já conhecido “Alice no País das Maravilhas”. Foi em 2008, então, que lançou o início de uma trilogia: “Jogos Vorazes” teve a sua ansiosa gênese. 

Pois bem, direcionemo-nos ao enredo do livro. Aqui se retrata a história de Katniss, moradora do Distrito 12, no país de Panem (antiga América do Norte, diga-se de passagem) e comandada pela Capital. É nesse lugar que acontece anualmente o que chamamos de Jogos Vorazes (ou Hunter Games, para os poliglotas): um reality show, onde um menino e uma menina de cada um dos dozes distritos são escolhidos, por meio de sorteios, a fim de batalharem até a morte em um campo residido na Capital. É na edição septuagésima quarta que Katniss vem a participar – em forma de tributo, para impedir que a sua irmã mais nova, escolhida no sorteio feminino, fosse para algo que não estava ainda preparada.

Junto a Peeta, Katniss vê-se indo para o lugar em que precisará batalhar por sua vida. A narração tramada por Suzanne é direta, sem rodeios e lirismos; as suas ideias são sobrepostas nas páginas e transmitem aquilo que é desenvolvido em sua mente, por vezes, muito criativa. A sua obliquidade é tamanha que desacostuma; digo: sente-se falta de tempo para respirar devido a sua forma subjetiva de escrita. Lemos, por meio da narração de Katniss, que aqui se torna a personagem principal, o que acontece em seu círculo de visão.

Enquanto o livro preza por sua característica sui generis, o filme não é diferente. A grande sacada de Gary Ross reside, entretanto, em mostrar além do que se é permitido conhecer no livro com a visão de Katniss. São retratados, entrementes, os bastidores do programa e seus momentos adjacentes – esses lapsos, por vezes, ficam subentendidos na narração de Suzanne, mas não é algo que se torna explícito com uma narração para além.

As diferenças entre brochura e película são diversas e, às vezes, pequenas e detalhistas – mas não tamanhas como em Percy Jackson, lembram-se? –, contudo, não é nada que torne o filme inutilizável. A adaptação nos quesitos fotografia e roteiro podem ser parabenizados de modo exemplar. Seja por questões éticas ou moralistas, no longa não é citado, entretanto, que o lugar ali retratado era, em épocas passadas, território norte-americano – o que concebe, na brochura, uma das grandes críticas ao modo como se propõe a estrutura social atual, principalmente na grande potência mundial, em que se distingue na indústria cultural massificada a admiração por aquilo que, se visto mais a fundo, é de retrato feroz em enlace à carnificina social hoje representada.

quinta-feira, 29 de março de 2012

O pijama (in)desejado.


Por Carlos Gabriel F.

Bem diria que em tempos de guerra, quem desconhece o caminho da inocência é rei. Bem diria Bruno que o que lhe importava nos tempos passados era uma casa grande para brincar com seus amigos e uma imaginação inigualável para determinar quando seria hora de parar. É sobre uma amizade nunca antes testemunhada que “O Menino do Pijama Listrado” vem a relatar: a inconcebível amizade entre aqueles que, numa época irracional perseguição e mudanças repentinas, gostariam tanto de diversão. 

John Boyne constrói, sem apelações ou narrações macabras, a história de Bruno, o menino aventureiro que, como já bem dito, deixa Berlim e parte rumo a uma região desolada, sem laços fraternais, para se deparar com a realidade de uma Alemanha em época de Holocausto. Do seu novo quarto era possível assistir àqueles que, para além da cerca, vestiam pijamas e davam-lhe frio na barriga. 

É numa de suas andanças pelas redondezas – porque com o tempo a casa se torna pequena, não há mais espaço e bem menos colegas para se brincar de dias de glória –, que Bruno se encontra com o menino de nome engraçado: Shmuel. Ele está para além da cerca, naquele lugar, que diz ele, o deixa fraco perante tanto trabalho; seu pai era trabalhador, dos simplistas, e vieram parar ali por uma ideologia que adotaram por gerações.  

A inocência de Bruno é marcante junto à sua alegria em ajudar àquele que toma como novo amigo. Nas peripécias da narração de Boyne, vemo-nos na vontade prematura de que, ao final, ambos os meninos consigam tramar uma fuga da realidade cruel e brinquem, por eras indefinidas, na imaginação que criarem. Somos tomados pelo sentimento da inocência, assim como dos personagens: apaixonamo-nos por Bruno e Shmuel nos seus tempos desesperada de sobrevivência.

A película lançada em 2008 e dirigida por Mark Herman é bem fiel à história original. A leitura, entretanto, torna-se quase que obrigatória. A fábula ditada rapidamente por John é de tamanha magnificência, transformando o inesperado em realidade literária, que é impossível não se emocionar ao final. Um final trágico mas de uma ideologia fantástica e necessária. É preciso consumir o livro, imaginar-se no lugar dos personagens cativados e pensar se faria diferente: se, naquela época de contexto diferente, tornaria a sua história divergente, se tomaria um pensamento diferente, se ajudaria aqueles que necessitavam de ajuda.

terça-feira, 27 de março de 2012

Mochilão com Júlio Verne.


Por Arthur Franco 

Com a evolução da ciência e o impacto das inovações tecnológicas do século XIX, a ficção científica encontrou um ambiente fértil para nascer. Robôs, andróides, viagens no tempo, vida em outros planetas: tudo que envolvia as novas ciências e o desenvolvimento nos campos da física, biologia, astronomia, entre outros, era digno de enredo de obras literárias. Foi nessa atmosfera de progresso que Júlio Verne se destacou e se consagrou como uma dos maiores autores de ficção científica.

Verne tinha uma imaginação fértil. Escreveu sobre máquinas voadoras, submarinos, viagens à Lua e ao centro da terra. É um dos autores mais traduzidos em todo o mundo e até hoje cativa leitores com suas histórias extraordinárias e repletas de elementos fantásticos. 

A Volta ao Mundo em 80 Dias foi originalmente publicado em 1873. Verne já era conhecido nessa ocasião, uma vez que seus livros anteriores tinham feito muito sucesso com o público. Nessa nova obra, o autor propõe uma tarefa que parecia impossível naquele dias: dar a volta ao mundo em 80 dias. Em um tempo em não havia aviões, era necessário viajar de trem ou de navio. Quem tentará tal façanha é Phileas Fogg, personagem criado pelo autor e protagonista do livro. Fogg é um cavalheiro inglês que, apesar de muito rico, vive uma vida regrada e sem muitas aventuras. Tudo muda quando ele sugere aos cavalheiros do seu clube, o Reform Club, que é possível dar a volta em 80 dias. Todo o cronograma de viagem já estava na cabeça do protagonista, e assim ele o expôs aos seus companheiros: 

De Londres - a Suez - paquete e caminho-de-ferro - 7 dias
De Suez a Bombaim – paquete - 13 dias
De Bombaim a Calcutá - caminho-de-ferro- 3 dias
De Calcutá a Hong Kong – paquete - 13 dias
De Hong Kong a Yokohama – paquete - 6 dias
De Yokohama a São Francisco – paquete - 22 dias
De São Francisco a Nova Iorque - caminho-de-ferro - 7 dias
Nova Iorque - Londres: paquete, caminho-de-ferro - 9 dias

Total: - 80 dias

Ninguém acredita nessa possibilidade. Fogg então propõe que ele mesmo dará a volta ao mundo em 80 dias e que, no dia 21 de Dezembro, às 08h45min da noite, estaria de volta ao Reform Club. Ao lado do seu criado Passepartout, Mr. Fogg vai embarcar em uma viagem que mudará o seu destino e que transportará o leitor aos quatro cantos do mundo. No seu enlaço, o Detetive Fix, que acredita que o protagonista assaltou o Banco da Inglaterra. 

O livro fez sucesso no seu lançamento, já que as pessoas não tinham tantas oportunidades de viajar no século XIX como hoje. Verne trouxe então as culturas, as vivências e os costumes dos mais variados povos e países para a literatura, acessível a qualquer um e a qualquer momento.

A obra já foi amplamente adaptada para os mais diversos meios. Talvez as mais famosas sejam a minissérie televisiva com Pierce Brosnan no papel de Mr. Fogg  e a adaptação cinematográfica com Jackie Chan  no papel principal. Entretanto, essa última versão é quase que uma releitura da obra, já que tem um tom cômico e possui alguns pontos divergentes do romance. 

sexta-feira, 23 de março de 2012

“Um policial de cortar a respiração”


Por Arthur Franco

Sou assumidamente fã de todo e qualquer tipo de romances policiais. As tramas bem amarradas, o suspense e a atmosfera criadas pelos autores de livros nos quais o leitor é levado a tentar adivinhar quem é o criminoso ocupam o lugar de destaque na minha estante. E é nessa categoria que Tess Gerritsen se enquadra. A autora americana (com ascendência chinesa, diga-se de passagem) é formada em medicina, mas é conhecida mundialmente por seus best-sellers policiais protagonizados pela detetive Jane Rizzoli e pela médica-legista Maura Isles. A emissora TNT transformou seus livros em uma série de televisão (muito boa por sinal!) chamada Rizzoli & Isles, que tem Angia Harmon e Sasha Alexander.

Rizzoli certamente não é o tipo de personagem que cativa o público, mas conforme sua história vai sendo desvendada, a detetive mostra que tem potencial para ser a próxima “Sherlock Holmes” ou até mesmo um “Poirot”. Já Maura tenta personificar o lado da razão, que tenta controlar o coração e ver o lado frio e coerente dos acontecimentos.  

O primeiro romance de Gerritsen que tive a oportunidade de ler foi A Pecadora. Com uma narrativa ágil, fácil de entender e que prende o leitor, a autora consegue fazer que a próxima página seja sempre mais interessante do que a anterior. O enredo se desenvolve a partir do assassinato de duas freiras, cujos corpos foram encontrados na Capela da Nossa Senhora da Luz Divina. As “irmãs” viviam em clausura, sem contato com o exterior. O caso se complica quando Maura, ao fazer a autópsia na irmã Camille, descobre que pouco antes de sua morte, ela deu a luz. Enquanto isso, um corpo mutilado é encontrado em um prédio abandonado. Existe alguma relação entre os homicídios? O suspense se concentra com o passar de cada linha e a investigação vai levá-las a ver que quem matou uma vez está sempre disposto a matar novamente. 

Interpondo uma investigação de um homicídio com o lado humano das investigadoras, a obra cativa tanto pela humanização dos personagens, que passam pelos mesmos acontecimentos que ordinariamente muitos sofrem, quanto pelo desenrolar da procura pelo assassino. Termos técnicos de medicina estão presentes em todo o livro e, ao invés de dificultar a leitura, fazem com que o leitor compreenda o que aconteceu e dá possibilidades e chances para que ele participe da investigação e, por conseguinte, resolva o mistério.

sábado, 17 de março de 2012

Corrida pela vida.

Por Arthur Franco

Sidney Sheldon é certamente um mestre na escrita de obras de suspense. O autor acumula em seu currículo diversos romances, roteiros para filmes, peças para a Broadway e é considerado pela Guinness o autor mais traduzido do mundo. Além de seus livros de suspense, escreveu também para o público infanto-juvenil, como romances como O Estrangulador, Corrida pela Herença e O Ditador. Na maioria da suas tramas, as personagens femininas têm o papel principal, sendo representadas por protagonistas fortes, talentosas e decididas. O escritor afirmava que as mulheres têm um poder que os homens nunca terão: a feminilidade. E essa característica fazia com que ele explorasse de todas as formas a sensualidade feminina  e se debruçasse sobre as particularidades das suas heroínas em suas histórias.

Seu livro Quem Tem Medo do Escuro? foi lançado em 2004 e logo se tornou um sucesso de vendas. Como de praxe, a história tem um tom de suspense e uma trama que logo prende o leitor.

A narrativa se inicia com a descrição de mortes sem explicação que vêm acontecendo em Berlim, Denver, Paris e Nova York. Uma única conexão une as quatro mortes: todas as vítimas trabalhavam para a KIG, Kingsley International Group, uma empresa envolvida em pesquisas de armas militares, telecomunicações e questões ambientais. 

Diane Stevens e Kelly Harris, viúvas de duas das vítimas, são chamadas pelo chefe da KIG, Tanner Kingsley, que explica que a empresa não está poupando esforços para descobrir quem matou os seus maridos. Mas parece que a empresa decidiu agir tarde demais. Logo após a conversa com Tanner, as duas passam a ser alvo de diversas tentativas de assassinato. Envoltas agora em um jogo de gato e rato, as duas precisarão se aliar para descobrir porque seus maridos foram mortos e porque alguém não quer que elas permaneçam vivas.  

domingo, 11 de março de 2012

"Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.


por Arthur Franco 

Em 1945, George Orwell já escrevia obras atemporais. A fabulosa A Revolução dos Bichos é prova disso. O livro é uma sátira aos regimes de governo, principalmente ao comunista, representado na época por Stalin. Utilizando uma ‘fábula’, o autor critica a sociedade e mostra o lado ‘porco’ da humanidade. 

A história se passa na fictícia Granja do Solar, mantida pelo proprietário Sr. Jones. Lá são criados porcos, galinhas, cachorros, vacas, entre outros animais. O porco mais velho, nomeado Major, teve uma vez um sonho, no qual os animais eram auto-suficientes e viviam independentemente dos humanos. “Basta que nos livremos do Homem para que o produto de nosso trabalho seja só nosso”, disse o porco. Esse novo tipo de sociedade seria chamado Animalismo. Seria uma sociedade paradisíaca, majestosa, onde os animais poderiam aproveitar o seu tempo livre e ninguém seria mais obrigado a conduzir carroças ou a produzir leite. O Major morre logo depois, mas a sua morte só serve para dar mais fervor e impulso à revolução. Depois de expulsar Jones e sua mulher da Granja, os animais tomam o poder e os jovens porcos Bola-de-Neve e Napoleão são os novos comandantes da então recém criada Granjas dos Bichos. A vida agora era outra: os animais iriam aprender a ler, a escrever, teriam datas comemorativas, criariam uma bandeira e instituiriam sete mandamentos: 

1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupas.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.

Os mandamentos se congregavam em uma máxima que era constantemente repetida pelos animais: “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. As ovelhas, como que para acreditar nesse aforismo, repetiam quase que automaticamente. Essa prática se assemelha àquela usada pelos comunistas: criação de slogans para a repetição continua e de fácil memorização. Mas os porcos são como os homens: sedentos de poder e de controle. Depois de um desentendimento, Napoleão expulsa Bola-de-Neve e torna a vida dos animais um terror: nenhum deles tem mais poder de voto, as horas de trabalho são maiores e a comida é cada vez mais racionada. Napoleão é o ditador e os animais são seu povo, alienados e convencidos por argumentos cínicos e fingidos; são entretidos por uma televisão colocada no celeiro e acreditam que tudo de horrível que acontece na granja é culpa do desertor Bola-de-Neve. 

Cinco anos é o tempo que Napoleão já está no poder. A maioria dos antigos moradores já morreu, e os novos só conhecem essa realidade opressora, em que a vida se resume a trabalhar e trabalhar. Os sete mandamentos foram uma vez escritos na parede do celeiro, mas como nenhum dos animais sabe ler (exceto o burro Beijamin), nenhum deles notou as mudanças ao longo dos anos:

4. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis.
5. Nenhum animal beberá álcool em excesso.
6. Nenhum animal matará outro animal sem motivo.


Os porcos já vivam na casa de Jones e andam com chicotes nas patas. O comércio entre homens e os ‘donos’ da Granja dos Bichos era freqüente. Caixas de whisky chegavam aos montes. Em uma das reuniões entre os porcos e os homens, os animais espiavam pela janela da cozinha. A cena que viram era grotesca, a tradução da violação do último mandamento, que passará a ser “Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros”. O que os animais viram é descrito na última cena do livro, provando que os homens, quando na busca por poder, podem se tornar 'animais': “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.

A revolução do título é uma alegoria a revolução Russa. Podemos identificar os personagens desse momento histórico: Major pode ser Lênin, Napoleão pode ser Stalin e Bola-de-neve como Trotsky. As ovelhas, o povo que repete as propagandas e as grava na cabeça; os cachorros como os fiéis guardar do ditador; o cavalo com seu tapa-olho que só o deixa olhar para frente. E os personagens são sempre substituídos por novos: os antigos ditadores caem e novos tomam o poder. Mas todos têm o mesmo lema, o mesmo pretexto para subir ao poder: querem trazer a igualdade.    

quarta-feira, 7 de março de 2012

x.o.x.o., Gossip Girl.


Por Arthur Franco

Serena, Blair, Chuck, Dan e Nate. Certamente você já ouviu falar em algum deles. Sãos os protagonistas da série Gossip Girl, do canal americano CW. Mas todas as intrigas, os rumores e as fofocas da ‘desconhecida’ gossip girl tem início na literatura. Gossip Girl - As delícias da fofoca, de Cecily von Ziegesar, é o livro que deu origem a todo o sucesso da série americana.

O livro, que é o primeiro de uma coletânea de 13 volumes, conta a história de adolescentes ricos de Nova York com uma vida agitada: muitas compras, festas, álcool e fofocas. Mas no meio disso tudo está a gossip girl, que possui um site onde coloca na internet todos os rumores, boatos e intrigas que cercam os jovens da elite de Nova York. Ninguém sabe quem é a responsável por tanta fofoca, mas ela sempre está por dentro de tudo.    

A história se foca principalmente na vida de Serena van der Woodsen, uma estudante que, depois de ser expulsa de um colégio na Europa, volta a Nova York. Todos, inclusive a gossip girl, só falam da garota e do que ela aprontou para estar de volta. Ao lado de Serena está Blair Waldorf, sua ex melhor amiga. Blair quer perder sua virgindade com Nate Archibald, seu namorado, mas nada corre como a princesinha Waldorf deseja, ainda mais depois de descobrir que Serena havia dormido com Nate. Chuck Bass, um garoto mulherengo e que sempre tem tudo o que quer, completa o núcleo do Upper East Side da trama. 

Fora desse contexto e sempre deslocado em meio aos ‘riquinhos’, se situa Dan Humphrey, aspirante a escritor e perdidamente apaixonado por Serena. Sua irmã, Jenny Humphrey, quer fazer parte da alta sociedade, mesmo não tendo dinheiro ou poder para isso. E Jenny fará de tudo para ser popular, até mesmo se juntar a Blair para tirar Serena do centro das atenções. 

Cecily von Ziegesar se baseou na sua própria adolescência para criar o enredo de ‘Gossip Girl’. A autora foi criada em meio à elite de Nova York e frequentou os melhores colégios da cidade, em meio a muitas festas, intrigas e disputas por popularidade. 

O livro foi considerado um ‘Sex and The City’ (da autora Candace Bushnell) para adolescentes e ganhou noticiabilidade depois que a série foi produzida.

sábado, 3 de março de 2012

Veronika decide viver

Por Arthur Franco

Paulo Coelho não é um dos escritos mais amados do Brasil, certamente. Mas nunca entendi essa fama negativa que o autor carrega consigo, muito porque a maioria das pessoas que dizem “não gosto de Paulo Coelho, é auto ajuda”,  “Paulo Coelho é uma merda, não sabe escrever” ou ainda “Paulo Coelho não é literatura” nunca chegaram nem a ler a primeira palavra de um livro do autor. Apesar dos seus livros terem todos uma tonalidade positivista e de transformação, levando o leitor a crer que todos podemos mudar o nosso destino, as suas obras não chegam a ser uma auto-ajuda explícita. Quase em tudo que o autor escreve, as mensagens de fé, paz, amor e esperança são transmitidas em forma de parábolas, de histórias com personagens reais, humanos, que erram, se arrependem, mas também que aprendem, que tem histórias de vida. 



O volume que vou abordar hoje é Veronika Decide Morrer, lançado em 1998. Um livro simples, com uma história teoricamente simples, com personagens simples, mas que numa segunda leitura se revela muito mais amplo e transformador. Paulo Coelho se inspirou em si próprio para a composição dessa obra. Aos 17 anos, o escritor foi internado em uma clínica psiquiátrica e prometeu que um dia iria escrever sobre o tema. A garota que dá o nome ao livro é Veronika, uma jovem eslovena que decide se matar. Não porque seja feia, ou porque é sozinha, ou porque é insatisfeita com o seu trabalho ou tem problemas financeiros. Veronika decide se matar simplesmente porque sua vida é indiferente. Nas suas palavras, “nunca tive depressão, nem grandes alegrias, ou tristezas que durassem muito.” E essa sensação de passividade é o cerne que dá estrutura ao livro e que faz com que a jovem decida por fim a sua existência. Mas até Veronika tem dúvidas se quer mesmo esse destino para si. “Ao invés de amassá-los e misturar com água, resolveu tomá-los um a um, já que existe uma grande distância entre a intenção e o ato, e ela queria estar livre para arrepender-se no meio do caminho.”

Mas, felizmente (ou não), Veronika é encontrada desmaiada e levada às pressas para um hospital e posteriormente internada em Villete, um “asilo de loucos”. É lá que a protagonista vai conhecer Zedka, ; Mari, uma já antiga interna que tem ataques de pânico e Eduard, um esquizofrênico que será uma metade responsável pela transformação na vida de Veronika. A outra metade que será papel indispensável na nova vida da jovem é o prognóstico do médico: devido à quantidade de calmantes que a garota ingeriu, seu coração foi afetado e logo deixará de bater. “Cinco dias, uma semana no máximo.” E a proximidade da morte fará com que Veronika abra os olhos para o mundo e comece a se libertar, se permitir, a fazer tudo o que tem vontade e a descobrir que viver é muito mais do que apenas estar vivo.  

quinta-feira, 1 de março de 2012

Segredos de um crime.


Por Arthur Franco

Agatha Christie morreu em 1976, mas a sua fama perdura até hoje. Com mais de 80 livros publicados e diversas peças encenadas, a “dama do crime” arquitetava como ninguém um crime. O seu método de escrita e criação passou por tempos desconhecidos. Mas com a morte de sua filha Rosalind em 2004, foram achados 73 cadernos escritos a mão que traziam valiosas anotações sobre suas produções. Detalhes dos crimes, listas de suspeitos, criação de pistas, o desenrolar da trama, tudo isso é revelado em Os Cadernos Secretos de Agatha Christie, de John Curran.

Essas anotações são uma importante fonte de informação de como Agatha desenvolvia as suas novelas. Desenhos, rabiscos, idéias aleatórias, detalhes por morte por envenenamento, tudo isso em meio a anotações de triviais, como listas de compras de presentes para o natal, deixam um pouco mais claro como Agatha estruturava as tramas e não deixava um fio solto no fim da história. Os cadernos deixam claro que eles eram para o uso pessoal de Christie, já que não existe nenhum sistema de organização e a letra da autora não é das melhores. 

O livro já seria atrativo em si, mas para encanto dos fãs, John Curran inclui dois contos inéditos de Christie. “A Captura de Cérbero”, que deveria ter sido publicado em 1947 como o número 12 na coletânea de contos “Os Trabalhos de Hércules”, só saiu para o público agora. O outro conto é “O Incidente da Bola de Cachorro”, que nunca foi publicado porque Christie decidiu aumentá-lo e transformá-lo em um livro, o que deu origem à Poirot perde uma cliente. 

Já no universo do romance policial, confira aqui a lista dos livros para se adentrar no mundo de Agatha Christie - Parte 1.